
Por William Correia, especial para a GE.Net
Novos rumos da arbitragem
" Anselmo da Costa: “Em no máximo quatro anos a Federação Paulista vai ter que nos procurar. Eles vão estar com muita gente formada, com a obrigação de dar jogos para apitar, e não há tantos jogos assim. Ainda não nos aceitam porque mexe com o ‘ego’”
Novidade: O Instituto Wanderley Luxemburgo, que tem o técnico do Palmeiras como um dos principais investidores, terá seu curso de arbitragem aceito por 23 das 27 federações estaduais do Brasil – apenas São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul não aceitam o certificado. O professor do IWL é Anselmo da Costa, árbitro afastado pela Federação Paulista de Futebol (FPF) exatamente por ter aceitado trabalhar na escola de Luxemburgo.
Primeiros resultados: Em dezembro, os primeiros alunos estarão se formando. Entre os que ganharão o diploma, estão árbitros que já estão no quadro da Federação Baiana de Futebol (FBF) e que optaram pelas aulas para “se reciclar”. As primeiras conseqüências do IWL serão conhecidas nos Estaduais de 2009.
Preço: O curso do IWL, com duração de um ano, custa 12 mensalidades de R$ 120 a R$ 416 – o preço total varia de R$ 1440 a R$ 4992. A Escola de Arbitragem da FPF, por exemplo, cobra 24 mensalidades de R$ 207,50 (metade do salário mínimo vigente) por dois anos de aula – ao fim de 24 meses, o aluno terá gasto R$ 4980.
Contraponto: A Comissão Nacional de Arbitragem afirma ainda não ter informações sobre o curso do IWL e reconhece que não pode intervir no convênio entre o instituto e as federações. Apesar disso, o presidente Sérgio Corrêa pede ajuda da população para que fraudes sejam denunciadas e lembra que a CBF oferece cursos de arbitragem, que formou instrutores que trabalham pessoalmente nas federações. Já as federações que não se associaram ao IWL para a temporada 2009 declaram já ter estrutura suficiente para formar árbitros.O curso que formará árbitros de 23 das 27 federações estaduais de futebol no Brasil tem sede em Alphaville, no “Studio Santiago Bernabeu”. Localizada ao lado de um confortável sofá branco, com uma mesa estofada à sua frente, a sala de aula raramente conta com mais de dez alunos e é antecedida por uma recepção recheada de fotos dos profissionais do local, figuras renomadas em suas áreas no esporte. Em destaque, o investidor que dá nome ao instituto: Wanderley Luxemburgo.É na “Escola Brasileira de Futebol” do treinador palmeirense que Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins apostam para ter melhores apitadores. E a responsabilidade de provar que seu curso é melhor que os das federações de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, únicas federações que descartam o IWL, é de Anselmo da Costa.Na visita que a reportagem da Gazeta Esportiva.Net fez à matriz, em Barueri (SP), a preocupação do professor de arbitragem foi a de mostrar que tudo é feito da melhor maneira no instituto. Antes de dar entrevistas nos quinze minutos que antecederam a aula, que começou às 19h10, Anselmo se reuniu em uma sala reservada com um de seus diretores e o preparador físico Antonio Mello, que, assim como Luxemburgo, alterna o emprego no Palmeiras com as aulas ministradas no mesmo dia das de arbitragem em estúdio vizinho. Após a conversa, o árbitro apareceu sorridente para um bate-papo antes de seu ‘programa’.Afastado da Federação Paulista de Futebol (FPF) exatamente por ter aceitado o convite de Luxemburgo, Anselmo é um legítimo apresentador de televisão na função de professor. Com uniforme tão elegante quanto o de quem batiza seu novo local de trabalho, Anselmo demonstra entre as 19h10 e as 22h30 de todas as quintas-feiras alguma desenvoltura vestindo terno e gravata em vez das camisetas amarela, preta ou vermelha que usava em campo.De microfone na mão, faz piadas e até suspense sobre quem é o seu convidado na aula do dia. Tudo sempre de olho em uma das duas câmeras à sua frente. É através delas que ele entra em contato com cerca de 95% de seus 200 alunos, “esparramados”, como costuma repetir, em 35 franquias localizadas em 31 cidades brasileiras, uma delas de propriedade do meia Petkovic, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O curso é assistido até em Miami (EUA), primeira filial no Exterior.Um sistema de ensino à distância que será utilizado no aprendizado de federações que representam aproximadamente 69% dos árbitros ativos nos dados da CBF – somando quem não é credenciado pela Confederação, o número atinge 80% dos apitadores no Brasil. E pode definir o rumo até de quem se interessa em apitar e não está no Brasil. Segundo o IWL, cerca de 700 brasileiros que moram nos Estados Unidos procuraram o curso, mas, como residem longe de Miami, devem ter acesso através de um link no site da escola. Além disso, está próximo um acordo para a abertura de uma filial no Paraguai, e outros países da América Latina e até da Europa estão interessados.Afastado das escalas de jogos oficiais, Anselmo ‘comprou’ tanto a idéia do curso que participa destas conversas. E confia que as mensalidades que variam de R$ 120 a R$ 416 pagas atualmente por “aspirantes a árbitros ou árbitros que já atuam e querem se atualizar ou se reciclar” valem mais do que as 24 parcelas de R$ 207,50 (metade do salário mínimo vigente) cobradas pela FPF por dois anos de ensino. “A nossa diferença está no que chamo de ‘acessórios’, o que o curso da federação oferece de maneira muito superficial, muito suave”, explica um Anselmo extremamente animado por ter seus primeiros formandos em dezembro.“São 140 horas de um curso que dura um ano e tem todas as disciplinas. O árbitro se forma aqui com aulas de psicologia, nutrição, fisiologia e gestão de carreira com profissionais de alta qualidade, como Regina Brandão, Carlos Brunoro, Antonio Mello... Além de explicar a regra, damos até aula de português – é muito feio ver as súmulas com aqueles garranchos. Em que lugar você tem aulas assim, com conteúdos voltados especificamente para o árbitro?”, questiona, apontando alguns dos colegas no IWL que já foram convidados para suas aulas. “Como ainda sou atuante e já fiz o curso da Federação (Paulista), vi o que estava faltando. Aqui, cuidamos da ‘pessoa árbitro’ e damos a ele um certificado. Ele fica preparado para participar das provas físicas e teóricas das federações que nos aceitam. É uma faculdade”.
Anselmo da Costa: “Em no máximo quatro anos a Federação Paulista vai ter que nos procurar. Eles vão estar com muita gente formada, com a obrigação de dar jogos para apitar, e não há tantos jogos assim. Ainda não nos aceitam porque mexe com o ‘ego’”É com este pensamento que Anselmo entra no estúdio/sala. Com a ordem de evitar tanto brincadeiras regionais quanto trocar olhares com os poucos presentes, o árbitro saúda a todos com visão fixa nas câmeras. Em um cenário típico de programa de televisão, solta frases que buscam proximidade aos alunos que acompanham as aulas telepresenciais – segundo os diretores, todas as filiais ostentam a mesma estrutura e os estudantes entram em salas com telões que transmitem tudo o que é feito na matriz. Quem assistir à aula in loco também tem à disposição dois monitores localizados na sala, que exibem tanto a ‘aula-show’ quanto os slides.O espírito de talk-show é encarnado até mesmo em relação a patrocinadores. Durante a aula sobre a importância da fisiologia na função de apitador, por exemplo, Anselmo recusou-se a citar Gatorade, que patrocina a FPF, como uma das maneiras de hidratração do árbitro durante a partida. “Não vou falar o produto porque não ganho para isso”, comentou, minutos antes de citar a Coca-cola como um de seus artifícios para matar a sede após os mais de 90 minutos dentro de campo.Os 15 anos atuando com um apito na mão, entretanto, são o grande atrativo do professor. O responsável e também coordenador do curso participa intensamente, inclusive interrompendo o seu convidado. Muitas vezes para falar diretamente com seu público. “Havia uma cultura obsoleta no futebol de que não se pode beber água na lateral para não dizerem: ‘olha aí, ele está desgastado, vai errar’. Ou então não pode tomar a água de um time porque pode favorecer no jogo. Coisa que eles (alunos/espectadores) sabem que acontece”, relata, em meio a ensinamentos do que acontece dentro das quatro linhas.“Quando vem todo mundo reclamar, a gente chama de ‘aniversário’, porque fica todo mundo em volta do árbitro”, “Tem que ficar ligado o tempo todo. Na hora que você relaxa, o lance acontece e até o gandula marca gol...” e “Um zagueiro corre no máximo seis quilômetros por jogos e em uma posição delimitada. Nós, árbitros, corremos 13 e ainda somos ‘policiais das áreas’. Temos que atravessar o campo todo para acompanhar” são algumas das experiências que Anselmo tenta passar. Quem faltar, solicita o DVD da aula e só pode assistir na filial que preferir – um cuidado rigoroso para que o conteúdo não saia das mãos da escola e seja pirateado.Os primeiros resultados do curso poderão ser vistos em 2009. Alguns árbitros que já estão no quadro da Federação Baiana de Futebol (FBF) estão se formando agora na primeira turma do IWL. Mas não é somente este público que Anselmo da Costa quer ensinar. O professor utiliza as baixas exigências de matrícula para estimular novos árbitros.Dos três módulos oferecidos, o mais simples é o “Curso Livre de Especialização Profissional”, do qual todos podem participar das 140 horas de aula. Na “Extensão Universitária”, só se cobra um profissional ligado a “futebol e afins” para assistir a 160 horas de curso, enquanto na “Pós-Gradução” é necessária formação em qualquer Ensino Superior para ter 360 horas à disposição. Estes dois últimos são reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC) – apesar do instituto ainda não estar registrado, a validade federal ocorre graças a uma parceria da escola com a Universidade Castelo Branco.Diante destas características, Anselmo informa a seus alunos que os credenciados pela Fifa recebem R$ 2500 por partida, enquanto ser da CBF ou da FPF rende R$ 2000 – para assistentes, o valor cai pela metade –, mas tenta provar que não é necessário nem ser profissional para ganhar dinheiro com um apito na mão, cartões no bolso e paciência para conviver com erros e xingamentos no exercício da função.“Damos o certificado também para quem quer apitar no futebol amador e ganhar um troquinho. Dou noção de empregabilidade. Se o cara ganha ‘cinquentão’ por jogo e apita dois na várzea por dia, trabalhando só no fim-de-semana tira R$ 800 por mês só como hobby. Não está bom?”, argumenta Anselmo, agora responsável por ensinar árbitros que decidirão a vida de muitos times em todo o país.